Entrevistas
Luanda – A bispa da Igreja Anglicana de Moçambique e Angola (IAMA), Filomena Teta, advoga a necessidade de maior empoderamento da mulher, por considerar ser a maior força social na transmissão de valores e princípios aos cidadãos, contribuindo para o bem-estar social e desenvolvimento do país.
Por Antonica Bengui, jornalista da ANGOP
Em entrevista à ANGOP, a líder religiosa asseverou que a sociedade angolana apresenta dificuldades na aceitação de mulheres em cargos de liderança, por encará-las como seres inferiores aos homens.
Pensa ser bastante positivo o engajamento das mulheres na luta pela igualdade de género, sublinhando que estas têm demonstrado capacidade para ocupar altos cargos no pa tanto nos sectores públicos como privados.
“É uma realidade notória em Angola o empoderamento da mulher em vários sectores da vida social e espiritual”, salientou, entretanto.
Eis a entrevista na íntegra:
ANGOP – Queremos, antes de mais, agradecer à reverendíssima bispa pela disponibilidade para essa entrevista, que visa falar um pouco sobre a sua trajectória profissional e sobre os desafios da mulher na sociedade angolana.
Para começar a conversa, diga-nos, de forma sintética, quem é Filomena Teta?
Filomena Teta (FT) – Filomena Teta é uma cidadã angolana, filha de Arménio Sebastião Teta e de Joana Maria das Neves Teta.
Sou licenciada em Economia pela Universidade Agostinho Neto (UAN) e com vários mestrados, designadamente em Direito Fiscal pela Universidade Clássica de Lisboa (Portugal), em Teologia pela Universidade do Brasil e em ministério.
Neste momento, estou a frequentar o doutoramento em Teologia.
Sou filha de um pastor, por isso desde muito cedo tive contactos sobre o Cristianismo e agora, desde o dia 3 de Setembro de 2023, fui entronizada como a primeira bispa da Igreja Anglicana de Moçambique e Angola (IAMA), na Diocese de Bom Pastor, em Luanda.
ANGOP – Onde e quando nasceu?
FT – Nasci no dia 3 de Julho de 1961, na província do Uíge
ANGOP – Depois da conquista da Independência Nacional, quais são as grandes memórias da sua adolescência?
FT – Participei na luta pela libertação de Angola na segunda região em Dolise, Congo Brazzaville, no internato 4 de Fevereiro, em Matsende.
Como sabe, qualquer refugiado a viver em terras alheias não é fácil. No internato tínhamos momentos da roda da fogueira e éramos incentivadas a ter esperança de uma Angola livre e independente, tornando-me numa nacional convicta.
Depois da Independência Nacional fui a Cuba dar continuidade aos meus estudos.
Quando terminei regressei a Angola, tendo participação na elaboração do primeiro qualificador de funções em Angola e tive vários empregos.
Trabalhei nas empresas Unicerâmica e Epromaq, no Banco Nacional de Angola, no Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação e nos Correios de Angola.
ANGOP- Onde foi a sua adolescência?
FT – Parte da minha adolescência foi no internato 4 de Fevereiro na Segunda Região, durante a luta pela independência de Angola.
ANGOP – Como foi o seu processo de educação? Há alguma prática, hábito ou costume de que sinta falta hoje e que considere essencial para a dignidade das mulheres?
FT – Um processo de educação de respeito mútuo, de respeitar sempre os mais velhos sejam eles parentes ou não.
Durante a guerra de libertação de Angola, nas bases não havia descriminação de género, pois todos lutavam para o bem comum. É assim que temos heroínas da luta pela independência, como Deolinda Rodrigues, Lucrécia Paím, Engrácia Santos, Irene Cohen, Teresa Afonso, etc.
O hábito de que sinto falta hoje á a unidade, todos por um e um por todos. Havia maior partilha, tolerância e éramos amigos uns dos outros.
ANGOP- Como chega à vida religiosa?
FT- Como disse, nasci numa família cristã. O pai era pastor e a mãe diaconisa, por isso desde a tenra idade recebi uma educação cristã.
Fui baptizada e casada na Igreja Metodista, pelo bispo emérito Emílio de Carvalho, e pertenci a um grupo designado “Joaquim de Figueiredo”.
Sou gémea, com Ana Teta das Neves Gregório, que sempre foi Anglicana, e querendo estar sempre ao lado da minha irmã participei nos cultos desta igreja na Paróquia de Santo Estêvão, no Golfe. Foi assim que me tornei uma Anglicana, ciente, porém, de que o nosso Deus opera em todas as igrejas que o busquem e envolvam o seu nome verdadeiramente.
ANGOP- Qual foi a motivação que a levou a ser pastora?
FT – Saber e poder servir a um Deus que nos ama incondicionalmente, a um Deus que por amor a nós deu o seu filho unigénito para pagar pelos meus pecados. Esta foi, entre outras tantas ↑ das motivações.
ANGOP – Quando decidiu abraçar a vida pastoral?
FT – Foi em 2010 que definitivamente abracei a vida pastoral
ANGOP – A sua caminhada cristã sempre foi na Igreja Anglicana? E qual foi o propósito?
FT – A minha caminhada cristã não foi sempre na Igreja Anglicana. Quando criança acompanhava o pai que era pastor e a mãe na igreja da IERA. Quando adulta frequentei a Igreja Metodista e depois a Igreja Anglicana.
ANGOP – Como mulher, certamente encontrou muitas barreiras ao longo do seu percurso até chegar ao bispado. Conte-nos como foi?
FT- Sim, houve algumas dificuldades na aceitação, pois a sociedade angolana ainda encara a mulher como um ser inferior ao homem.
A sociedade africana, de uma maneira geral, e em particular a angolana, não aceita que o homem se subordine a uma mulher, mesmo que ela tenha capacidades e competências superiores a homens.
ANGOP – Como tem conciliado a vida pastoral e o lar?
FT – A conciliação da vida pastoral e o lar é um desafio gratificante e emocionante, que exige envolvimento, sabedoria de Deus, comprometimento, aceitação, colaboração do agregado familiar e a participação de todos no grande lema da religião que é fazer o bem, sem olhar a quem.
ANGOP – Tem algum episódio que nunca esquece nessa sua caminhada, que sirva de exemplo para outras mulheres que sonham em vencer na vida?
FT – Um dos episódios que nunca esqueço, nesta caminhada, é o facto notável de que em todas as igrejas a maioria dos membros são mulheres e nem sempre lhes é dada a oportunidade de ministrar a palavra de Deus como Clériga, mesmo tendo dom e capacidade demonstrada.
Infelizmente, em pleno século XXI, ainda temos conservadores machistas.
Como primeira pioneira na igreja Anglicana em Angola ordenada, em 2010, a primeira ordem Diaconisa e, em 2023, a primeira bispa de Angola e Moçambique quero encorajar todas as mulheres, dizendo que Deus não faz acepção de pessoas.
Diante do trono somos todos filhos e filhas de Deus, com capacidades dadas por ele para exercermos o sacerdócio.
Hoje temos seis bispas a nível de África e somos chamadas a fazer a advocacia na violência contra o género e também na obra de Deus.
Dou força e coragem às mulheres para não desanimarem porque o nosso Deus é maior.
ANGOP – O ano em que chegou ao bispado marcou uma viragem significativa para as mulheres, que viram aumentar a sua representatividade nas no campo religioso. Como olha para esse processo de emancipação da mulher angolana?
FT – Fiquei muito emocionada quando, em Maputo, após o seminário de capacitação dos bispos e cônjuges umas jovens meninas se dirigiram a mim, depois da missa, dizendo que elas também aspiravam, no futuro, ser como a bispa, pois ficaram muito sensibilizadas e motivadas para se preparar para também serem reverendas ou mesmo bispas no futuro.
ANGOP – Como olha o desempenho da mulher na região, no Parlamento e nos sectores públicos e privados?
FT – De uma maneira geral, a mulher angolana está engajada na luta (pelo equilíbrio) do género. Eu sou exemplo da mudança de paradigma na igreja, e tenho fé que teremos muitas outras bispas, reverendas e diaconisas em várias igreias em Angola com conhecimento e capacidad↑ reconhecida no Governo de Angola.
Ainda existem muitas mulheres a ocuparem altos cargos de decisão no país e nos sectores públicos e privados.
É uma realidade em Angola o empoderamento da mulher em vários sectores da vida social e espiritual e é notável o desempenho destas mulheres onde estão colocadas.
ANGOP – Hoje, quando olhamos para as mulheres jovens, notamos um claro desvio à matriz educacional africana dos anos (19)50/60/80 e 90. Até que ponto a globalização tem ajudado a desvirtuar a essência da mulher angolana, sobretudo na forma de vestir?
FT- De facto, olhando para os anos (19)50/60/80 e 90, vemos mudanças significativas nestas gerações.
Hoje, com o fenómeno da globalização, vem importação de culturas e hábitos alheios e nossos.




